Sessão de 17 de Junho de 2010

Na próxima quinta-feira, serão exibidos no Cinema Passos Manuel, às 22 horas, 5 documentários do aclamado realizador iraniano Kamran Shirdel.

Tanhae-ye-Awal – Solidão Opus I 2000/2001 -18′

An Shab ke barun  amab – A noite em que choveu 1967/1974 -35′

Teheran, payetakhat-e Iran ast – Teerão é a capital do Irão 1966/1979 -18′

Qaleh – Sector Feminino 1966/1980 -18′

Nedamatgah – Prisão de Mulheres 1965 – 10′

Nota biográfica de Kamram Shirdel

por João Paulo Macedo

Kamram Shirdel nasceu em Teerão em 1939. Estudou Arquitectura e Design na Universidade de Roma e Realização no Centro Sperimentale di Cinematografia (CSC), igualmente na capital italiana. Durante os seus estudos, teve Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini, Nanni Loy, Francesco Rosi, Gillo Pontecorvo, Vittorio di Seta e muitos outros como seus professores ou formadores. O seu filme de licenciatura Gli Specchi (“Os Espelhos”) venceu o Diploma de Honra no World Cinema School Film Festival, em Tóquio. Neste período, trabalhou também como assistente de realização de John Huston que, na altura, rodava “A Bíblia” nos estúdios da Cinecittà. Depois da sua licenciatura, em 1965, Shirdel regressou a Teerão onde começou a realizar documentários para o Ministério Iraniano da Cultura e das Artes. Nos três anos seguintes, dirigiu os seus mais conhecidos documentários sócio-políticos, seis filmes que, de forma corajosa e franca, revelam o lado mais negro do boom económico iraniano de então, analisando os efeitos de uma sociedade inundada pelos petro-dólares.

Estes filmes colocam-se no campo de uma profunda consciência social, reminiscência da melhor tradição neo-realista italiana; um cinema marcado pela sua permanência em Itália.

Os documentários furiosos de Shirdel e a sua linguagem cinematográfica, foram motivo de discussão e perseguição pelo regime do Xá Reza Palevhi, obrigando a exilar-se, já que abordavam a vida dos menos privilegiados e excluídos, denunciando e criticando, desta forma, a corrupção do mecanismo de poder.

Devido à severa censura iraniana, quase todos os seus filmes foram banidos e confiscados. Shirdel acabou por ser expulso do Ministério e colocado na lista negra. Sete anos mais tarde, realiza “The Epic of the Gorgani Village Boy (The Night It Rained!)”, vencedor do Grande Prémio do Terceiro Festival Internacional de Teerão (1974) e justamente considerado um marco histórico do documentarismo mundial. Mas o filme foi censurado, tal como sucedera com as suas  outras obras “Nedamatgah” (“Prisão de Mulheres”, 1965), “Qaleh “(“Quarteirão de Mulheres,” 1966) e “Teerão é a Capital do Irão” (1966) entre outros. O cineasta acabou de novo banido. A sua única (e até hoje completa) longa-metragem, “A Manhã do Quarto Dia” (1972), uma remake do filme “O Acossado”, de Jean-Luc Godard, ganhou diversos prémios no Sepas National Film Festival. Três anos mais tarde,a segunda longa-metragem, “The Camera”, baseada no “General Inspector” de Nikolai Gogol foi censurada, ainda durante a rodagem, e assim permanece. Shirdel foi proibido de prosseguir o seu trabalho de observação e análise da sociedade. Vê-se forçado a colocar a sua criatividade e talento técnico na realização de um volume enorme de encomendas e filmes institucionais. Uma produção fértil de películas técnicas e educacionais de altíssima qualidade. Kamran Shirdel é considerada uma figura central e um dos pais da Escola do Novo Cinema Iraniano, abrindo caminhos para um certo tipo de cinema crítico e com preocupações sociais, que o Irão recusa, por apresentar uma reflexão assertiva e politicamente documentada da realidade. Muitos cineastas Iranianos da nova geração como Abbas Kiarostami, Amir Naderi, Jafar Panahi, Rakhshan Banietemad, Mohammad Reza Aslani, Khosrow Masooumi, Mahvash Sheikholeslami, Soudabeh Babagap, foram seus alunos ou trabalharam com Shirdel enquanto estudantes. Os filmes de Shirdel são justamente apontados como verdadeiras referências para o documentário social e a realização cinematográfica no Irão, e foram apresentados em inúmeros festivais internacionais de cinema e muitas retrospectivas como Moscovo, Cracóvia, Leipzig, Florença, Paris, Berlim, Estugarda, Montreal, Toronto, Beirute, Sicília, Roma, Londres, UCLA, Chicago e Locarno, entre outros. Kamram Shirdel trabalhou igualmente em inúmeros comités de selecção e como júri em vários festivais internacionais de cinema, no Irão e no estrangeiro. Foi premiado em muitos desses certames, recebendo um Prémio de Carreira no festival libanês Docudays, em 2003.

Shirdel é fundador e director da produtora FILMGRAFIC CO. e do Kish International Documentary Film Festival (KIDFF), o único festival independente de documentários no Irão. A actividade do certame foi abruptamente interrompida com a chegada ao poder dos actuais governantes iranianos, que tomaram de assalto os escritórios do festival.

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Vemo-nos na Sessão, até lá!


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